Temer diz que Bolsonaro seria herói se tivesse assumido combate à pandemia

O ex-presidente da República Michel Temer (MDB) afirmou hoje que o presidente Jair Bolsonaro seria considerado um "herói nacional" se tivesse, desde a chegada da pandemia no Brasil, assumido a coordenação do combate à doença e reconhecido a gravidade da covid-19. "Mas isso não aconteceu", disse Temer em evento virtual com presidentes de grandes empresas do varejo. O ex-presidente criticou Bolsonaro ainda pela falta de diálogo com o Congresso e "radicalizar" o ambiente político. Para o ex-presidente, hoje, o governo não tem um plano para o país.

"Se o presidente da República tivesse assumido no primeiro momento o combate à pandemia e centralizado essa atividade para adquirir vacinas, visitar os Estados...", disse Temer. "Se ele tivesse feito isso logo no primeiro momento, levando em conta a gravidade da pandemia, ele se transformaria hoje num herói nacional. Ainda seria um símbolo para toda a América Latina. Mas isso não aconteceu."

O ex-presidente destacou a importância da harmonia entre os Três Poderes e disse que o clima atual no país é de "divergência no grau máximo". "Temos mania de achar que o presidente pode tudo. E ele não pode. Se o presidente não tiver o apoio do Congresso Nacional, ele não governa. Quem governa o país é Executivo e Legislativo juntos e, se houver divergência, tem o órgão julgador, o Judiciário", disse Temer.

Desde a chegada da covid-19 no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro tem subestimado a gravidade da doença e agido contra medidas de restrição a circulação determinadas por governadores e prefeitos para tentar barrar a disseminação do vírus. Depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) ter garantido aos Estados o direito de tomar as medidas de restrição de acordo com o quadro sanitário local, Bolsonaro passou a dizer que tinha sido impedido pelo STF de agir diante da pandemia.

"Não é o Supremo que determina se União, Estados ou municípios são responsáveis. A Constituição é que determina", afirmou Temer. "O fundamental no nosso país é cumprir o sistema normativo. E não temos cumprido, nem em matéria de direitos individuais nem em matéria federativa nem na divisão orgânica do poder."

Temer reconheceu uma mudança na forma de agir de Bolsonaro ao nomear para o Ministério das Relações Exteriores um diplomata "multilateralista". Cobrou, no entanto, mais diálogo e união do governo federal com as instituições. "Nesse momento, a regra deveria ser: unidos e vacinados."

O ex-presidente foi questionado pelos empresários sobre perspectivas para as eleições gerais de 2022. Respondeu que não se deve antecipar esse debate porque a prioridade é combater a pandemia e recuperar a economia. Para Temer, o que existe até o momento são "duas radicalizações" - em referência a Bolsonaro e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "Acho que vai aparecer alguém que caminhe pelo meio, mas não será agora. Quem aparecer agora será queimado. Em fevereiro, março de 2022 deve se começar a definir candidaturas", avaliou Temer.

1 de 1 Michel Temer — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Michel Temer — Foto: Silvia Zamboni/Valor